sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Quando a sorte não é lançada



Foto ilustrativa

Ontem quando sai de um hospital, logo após comprar um lanche para comer e agradecer ao vendedor recebi como resposta o desejo de boa sorte. Consigo imaginar o porquê ele me desejou boa sorte, até porque ninguém vai ao hospital por um motivo bom, principalmente se tratando de uma emergência de hospital público. Em minha cabeça a única coisa que eu conseguia pensar ao sair dali é que a sorte nem havia sido lançada, para me preocupar se a sorte seria boa ou ruim e tentarei nesse texto lhes explicar o porquê cheguei a esta conclusão.

Há mais ou menos uma semana, um morador de rua fez da fachada da nossa igreja, sua casa. Tentamos ajudá-lo, oferecendo levá-lo a um local que lida com moradores de rua, o que não foi aceito e deixamos claro que não o expulsaríamos dali, mas que não podíamos aceitar a situação em que ele estava vivendo. Da mesma forma que eu prezo pela minha dignidade entendo que devemos prezar pela dignidade do nosso próximo (acredito no princípio ensinado por Jesus que devemos fazer ao nosso próximo aquilo que gostaríamos que fosse feito por nos). Durante esse tempo ele foi alimentado e tentamos fazer o nosso melhor em relação a ele (não acredito que fizemos tudo o que poderíamos fazer, mas tentamos dar o nosso melhor), seja conversando, levando amor e até respeito. Passado alguns dias, esse senhor que não estava conseguindo andar mais passou a ficar deitado, imóvel, com uma baba na sua boca, que provavelmente era algo que havia vomitado. Víamos que ele estava respirando e por responder ao toque víamos que ele estava vivo, mas que a morte já estava batendo na porta dele.

Tentamos então procurar algum órgão que pudesse ajudá-lo. Como a maioria dos órgãos, até pela internação compulsória ser algo proibido na Bahia, depende do consentimento da pessoa, todos afirmaram que não poderiam fazer nada por ele. Ligamos para SAMU, mas por se tratar de um morador de rua, negaram atendimento ao mesmo. Ficamos sem chão, e o sentimento de não poder fazer nada nos trazia uma frustração muito grande. Decidimos então colocá-lo dentro de um carro e tentar levá-lo a algum hospital, mas graças a uma orientação de um socorrista, conseguimos fazer com que a SAMU fosse socorrê-lo. Liguei então para um centro que lida com moradores de rua para pedir orientação de como deveríamos proceder e me informaram que devido ao fato dele não ter carteira de identidade, que os hospitais não o receberiam para atendimento e que eu deveria me preparar para uma verdadeira batalha para conseguir que ele fosse atendido.
Por um toque divino, “José” (foi esse o nome que ele nos disse) foi atendido e do mesmo jeito que foi retirado da rua, continuou na ambulância e no hospital, sem se mexer, sem falar e apenas respirando, como um morto vivo e por uma ajuda de uma médica que estava no plantão e que também era socorrista, o mesmo foi prontamente medicado.

É claro que sempre existem pedras no meio do caminho, mas não acredito que pisarmos ou deixarmos de pisar em uma ou outra pedra é uma questão de sorte, mas sim uma questão de escolha. Como o médico bem disse, o problema dele não era só o problema aparente, mas o seu problema maior era o fato de estar se matando e se degradando a muito tempo. Todos o que sentiam o seu cheiro e viam o seu estado perguntavam se ele ainda estava vivo e acredito que alguns pensavam que melhor seria que ele fosse jogado em algum canto para morrer logo, dando espaço para que outra pessoa pudesse ser atendida.

A minha abordagem com moradores de rua é sempre a mesma, sempre digo que nasci em berço de ouro e vivo em berço de ouro e que seria hipocrisia minha dizer que entendo e sei o que as pessoas que moram na rua sentem. Mas, uma coisa eu sei, pagamos o preço das nossas escolhas e isso não tem a ver com sorte e azar. O ponto central é que independente da escolha que fazemos, independente de sermos orgulhosos e não nos permitirmos sermos ajudados, sempre teremos direito a mais uma chance, até porque enquanto estivermos vivos, ainda haverá esperança e esperança traz consigo a possibilidade de mudar.

Continua então ecoando em minha mente, que mesmo que a sorte não seja lançada, mesmo que exista um preço a se pagar por cada escolha de fizermos, existe algo que poderá mudar o nosso rumo, história e destino. Essa algo chama-se amor e para você que ainda não sabe a palavra de Deus nos ensina que Deus é amor (1 Jo 4:16), então se quiser saber o que é amor permaneça em Deus e ele irá permanecer em você.

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