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Ontem quando eu estava no ônibus passei
por uma situação inusitada. Uma pessoa, com algo em torno de 20 e poucos anos,
entrou pela frente do ônibus e o motorista começou a falar com ele, que ele
deveria descer do ônibus. E por quê ele deveria descer do ônibus? Porque
segundo o motorista só pode entrar pela frente quem tem o “passe livre”. O
único problema é que essa pessoa tinha síndrome de down e por isso esperou que
seu pai chegasse, o qual argumentou que seu filho era especial e que por isso,
mesmo sem passe deveria entrar pela frente. No final das contas, o rapaz acabou
fazendo a viagem dele de “grátis”, mas eu tive a curiosidade de procurar a lei
que rege o passe gratuito e vi que o motorista estava certo.
Estava certo quanto a aplicação
da lei, mas não em como ele deveria lidar com aquela pessoa. Isso porque ele é
um ser humano e merece ser tratamento dignamente. Por mais que ele tenha
entendido o que o motorista estava falando com ele, ele não tinha a capacidade
de questionar ou de argumentar, a única coisa que ele podia fazer era cumprir a
ordem, mas para isso, ele dependia de seu pai, que estava na fila para passar
pela catraca.
Seria hipocrisia da minha parte
dizer que eu sei bem o que passou pela cabeça daquele rapaz, mas a verdade é
que eu não tenho a menor idéia. Todos nos já fomos excluídos um dia, seja
através de um apelido, de um distrato, por uma dúvida, por uma postura ou até
mesmo por uma carência. O que eu posso dizer é que a atitude do motorista é
igual a atitude que nos temos em nosso dia a dia, a atitude de esquecer que
estamos lidando com seres humanos e reproduzir para as pessoas o tratamento que
recebemos. Assim como aquele rapaz com síndrome de down, a única resposta que
conseguimos dar para o mundo ao redor, é a de apenas cumprir o que está sendo
ordenado. Não conseguimos mais questionar, entender, nem racionalizar as coisas
que estão em nossa frente.
Essa última semana estive lendo
os versículos 8 a 10, do capítulo 11 da carta aos Romanos:
"Deus lhes deu um espírito de atordoamento,
olhos para não ver e ouvidos para não ouvir, até o dia de hoje". E Davi
diz: "Que a mesa deles se transforme em laço e armadilha, pedra de tropeço
e retribuição para eles. Escurençam-se os seus olhos, para que não consigam
ver, e suas costas fiquem encurvadas para sempre".
E também os versículos 25 a 27, do livro dos Atos dos Apóstolos:
"Bem que o Espírito Santo falou aos seus
antepassados, por meio do profeta Isaías: ‘Vá a este povo e diga: "Ainda
que estejam sempre ouvindo, vocês nunca entenderão; ainda que estejam sempre
vendo, jamais perceberão". Pois o coração deste povo se tornou insensível;
de má vontade ouviram com os seus ouvidos, e fecharam os seus olhos. Se assim
não fosse, poderiam ver com os olhos, ouvir com os ouvidos, entender com o
coração e converter-se, e eu os curaria’.
Essas duas passagens falam especificamente sobre os judeus e sobre o
fato deles terem rejeitado aquilo que Deus tinha para eles. Fala sobre como
eles endureçam o coração deles, o que impediu que eles vissem, ouvissem e
entendessem a mensagem de Deus para eles. Em nossos dias, entendo que essa
mesma mensagem que coube aos judeus, cabe também a cada um de nos.
Creio que temos endurecimento o nosso coração e por isso não estamos
ouvindo, nem vendo, nem entendo a visão de Deus nos nosso dias. Então acima de
qualquer coisa precisamos procurar o maior milagre de Deus em nossas vidas: o
de transformar um coração de pedra em um coração de carne. E nunca se esqueça
quem tem boca fala o que quer e quem tem ouvido também ouve o que não quer, mas
precisamos acima de tudo ver com os olhos de Deus e ouvir com os ouvidos de
Deus para que possamos entender e lidar com os dias de hoje. Que possamos abrir
os nossos corações, para que não possamos excluir aqueles a quem devemos amar.

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