quinta-feira, 3 de maio de 2012

Grito aos excluídos 2


Ontem quando eu estava no ônibus passei por uma situação inusitada. Uma pessoa, com algo em torno de 20 e poucos anos, entrou pela frente do ônibus e o motorista começou a falar com ele, que ele deveria descer do ônibus. E por quê ele deveria descer do ônibus? Porque segundo o motorista só pode entrar pela frente quem tem o “passe livre”. O único problema é que essa pessoa tinha síndrome de down e por isso esperou que seu pai chegasse, o qual argumentou que seu filho era especial e que por isso, mesmo sem passe deveria entrar pela frente. No final das contas, o rapaz acabou fazendo a viagem dele de “grátis”, mas eu tive  a curiosidade de procurar a lei que rege o passe gratuito e vi que o motorista estava certo. 

Estava certo quanto a aplicação da lei, mas não em como ele deveria lidar com aquela pessoa. Isso porque ele é um ser humano e merece ser tratamento dignamente. Por mais que ele tenha entendido o que o motorista estava falando com ele, ele não tinha a capacidade de questionar ou de argumentar, a única coisa que ele podia fazer era cumprir a ordem, mas para isso, ele dependia de seu pai, que estava na fila para passar pela catraca.

Seria hipocrisia da minha parte dizer que eu sei bem o que passou pela cabeça daquele rapaz, mas a verdade é que eu não tenho a menor idéia. Todos nos já fomos excluídos um dia, seja através de um apelido, de um distrato, por uma dúvida, por uma postura ou até mesmo por uma carência. O que eu posso dizer é que a atitude do motorista é igual a atitude que nos temos em nosso dia a dia, a atitude de esquecer que estamos lidando com seres humanos e reproduzir para as pessoas o tratamento que recebemos. Assim como aquele rapaz com síndrome de down, a única resposta que conseguimos dar para o mundo ao redor, é a de apenas cumprir o que está sendo ordenado. Não conseguimos mais questionar, entender, nem racionalizar as coisas que estão em nossa frente.

Essa última semana estive lendo os versículos 8 a 10, do capítulo 11 da carta aos Romanos:

"Deus lhes deu um espírito de atordoamento, olhos para não ver e ouvidos para não ouvir, até o dia de hoje". E Davi diz: "Que a mesa deles se transforme em laço e armadilha, pedra de tropeço e retribuição para eles. Escurençam-se os seus olhos, para que não consigam ver, e suas costas fiquem encurvadas para sempre".

E também os versículos 25 a 27, do livro dos Atos dos Apóstolos:

"Bem que o Espírito Santo falou aos seus antepassados, por meio do profeta Isaías: ‘Vá a este povo e diga: "Ainda que estejam sempre ouvindo, vocês nunca entenderão; ainda que estejam sempre vendo, jamais perceberão". Pois o coração deste povo se tornou insensível; de má vontade ouviram com os seus ouvidos, e fecharam os seus olhos. Se assim não fosse, poderiam ver com os olhos, ouvir com os ouvidos, entender com o coração e converter-se, e eu os curaria’.

Essas duas passagens falam especificamente sobre os judeus e sobre o fato deles terem rejeitado aquilo que Deus tinha para eles. Fala sobre como eles endureçam o coração deles, o que impediu que eles vissem, ouvissem e entendessem a mensagem de Deus para eles. Em nossos dias, entendo que essa mesma mensagem que coube aos judeus, cabe também a cada um de nos.

Creio que temos endurecimento o nosso coração e por isso não estamos ouvindo, nem vendo, nem entendo a visão de Deus nos nosso dias. Então acima de qualquer coisa precisamos procurar o maior milagre de Deus em nossas vidas: o de transformar um coração de pedra em um coração de carne. E nunca se esqueça quem tem boca fala o que quer e quem tem ouvido também ouve o que não quer, mas precisamos acima de tudo ver com os olhos de Deus e ouvir com os ouvidos de Deus para que possamos entender e lidar com os dias de hoje. Que possamos abrir os nossos corações, para que não possamos excluir aqueles a quem devemos amar.

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